O Tempo e Outros Sinais de Vida
Por Renato Souto Maior
O ser só é o protagonista dos quatro filmes que compõem o programa O Tempo e outros Sinais de Vida, e apenas a lembrança, familiar ou não, é elemento de conexão entre os curtas. Cansaço e sofrimento estampam os rostos dos personagens, e apenas a memória afetiva os fazem trabalhar, implicando na ação mais mecânica que emotiva, onde a nostalgia se apresenta como única razão para seguirem suas existências, na mais completa solidão, mas acompanhados, sempre, de seus passados avidamente celebrados e guardados.
G16 G17 (Saw Tiong, Malásia) inicia o programa com história comovente, mas não convincente, de mãe e filho e a ligação entre eles através de uma sala de cinema. Para agradar a mãe, exclusivamente por isso, ele volta ao cinema abandonado da cidade para resgatá-lo e presenteá-la com sua restauração. Narrativa fluída e bem amarrada em um filme tecnicamente satisfatório e só. A trilha instrumental excessiva cansa, e quando parece ter acabado volta completa nos créditos, só para, assim como de filho para mãe, presentear o espectador; este, certamente, não convidativo ao presente.
Depois foi exibido o filme mais curto da seleção, e junto com o próximo, o mais denso, poético e representativo do tema. O Homem da Cabine (The Cabin Man, Ashish Pandey, Índia) narra à trajetória de um homem, sozinho, em uma estação de trem, a vagar pelos trilhos, matas e arredores do lugar. A saudade e dor expressas em seu rosto são explicadas em uma cena, breve, onde ele olha embaraçado uma foto de família; e este belo toque já explica qualquer dúvida sobre a sua origem e seu semblante sofrido e pensativo.
O mais visualmente experimental do programa, Maré (Marea, Hatuey Viveros, México) conta a relação de um solitário pescador e o mar, e por cenas soltas constrói essa ligação entre este homem sozinho e suas perdas, suas recordações e seu passado. As inconstâncias da maré e das ondas remetem a própria personalidade dele, perdido entre realidade e memória, andando, pela praia, a catar coisas e afetos. Com um tom acinzentado puxado para o azul, a produção se mostra excepcionalmente bem realizada e com um traço lúdico eficaz no texto, narrativa e estética.
O último curta, Uku Ukai (Audrius Stonys, Lituânia), fala de velhos, e da importância física do movimento para suas vidas. Aqui as pessoas, apesar de em alguns momentos compartilharem companhia numerosa, também correm, andam, se exercitam em estado de solidão, e o homem idoso de camisa amarela a correr pelas ruas sintetiza isso; juntamente com a narração em off de uma mulher a falar, como em uma gravação, as atividades vitais para qualquer um, “respire, e expire, calmamente”. Seu timbre vocal reforça a idéia de meditação, movimentos repetitivos, concentração e disciplina. O filme se confunde e se estende mais do que deveria, mas vale pelo exercício rigoroso de concentração do espectador, algo propositalmente colocado para produzir efeito semelhante ao visto na tela, o de paciência e repetição, características presentes na idade avançada, no corpo cansado que responde a tudo com mais sensibilidade e dor.
0 comentários:
Postar um comentário