quinta-feira, 16 de julho de 2009


terça-feira, 7 de abril de 2009

Where The Wild Things Are


quinta-feira, 12 de março de 2009

Alice, por Tim Burton.












domingo, 23 de novembro de 2008

Janela

Clicos da Vida
Por Renato Souto Maior


Em trânsito a existência se encontra, e a diferença entre um acontecimento e outro se estabelece na percepção, em se situar e poder entender determinado momento, estado, experiência ou condição. Ciclos da Vida é um programa bem objetivo por resumir as fases da vida a transições de idade e morte, ou seja, naturalista, em sua maioria.

Corpo no Céu (Luisa Marques, Rio de Janeiro, 2008) é um retrato repleto de clichês, verdadeiros, sobre uma adolescente em um momento importante, percebido por ela, e transmitido com uma dramática e desnecessária seqüência, exagerada pela música de gosto duvidoso, no final do filme, quando se despede da família e embarca em uma viagem.

Se o encantamento com o filme anterior acontece por uma celebração à juventude e as maravilhosas expectativas de uma vida supostamente longa e bem-sucedida, sentimento aceitável e incentivado entre os jovens, Corpo Presente: Beatriz (Marcelo Toledo, Paolo Gregori, São Paulo, 2007) inicia a trajetória da protagonista de maneira determinante, ao anunciar a sua morte. A partir do já conhecido destino de Beatriz a produção apresenta um dia ordinário na vida da operária, mãe de um filho pequeno, e tece sua rotina como algo extremamente infeliz, sem vida. Morrer foi a mais audaciosa e impactante coisa que poderia ter acontecido e ela, e a única possibilidade de mudança significativa só viria através da morte.

Com O Sapato de Aristeu (Luiz René Guerra, São Paulo, 2008), curta preto e branco irretocável e sensível, a morte toma caráter de transformação ao reorganizar valores e comportamentos. Infeliz com a condição do filho travesti, mãe enxerga em sua morte uma forma de solucionar o infame e sempre existente problema, fisicamente com formas de seios e cabelos cumpridos, pertencentes ao corpo nu deitado sobre a sua cama. O corte do cabelo aparece repleto de simbologia, e a dignidade do morto então é restaurada, por devolver-lhe a aparência masculina. Após mobilização das amigas travestis em frente a sua casa, a família reconsidera e aceita a condição homossexual do ente calçando-lhe seus sapatos, femininos, em um toque narrativo esplendoroso e eficiente.

A Espera (Fernanda Teixeira, Rio de Janeiro, 2007) retrata um velho impaciente com o cotidiano monótono e propositalmente comum de sua vida, ansioso pela chegada da morte ao lustrar e encerar seu próprio caixão com tamanho afinco e propriedade. Movido por ações mecânicas e repetitivas, a esperar a morte que não chega, ele decide cessar o evidente sofrimento de viver e se suicida, deixando o olhar vivo que o analisa na ótica de um cachorro, sua até então única companhia. Apesar de ter seus méritos, o filme soa forçado e não impressiona. A idéia do idoso renegado e ocioso se apresenta antiga.

Encerra o programa com cunho mais subjetivo e otimista a animação Terra (Sávio Leite, Minas Gerais, 2008), ao tratar os ciclos da vida como opções, possibilidades e escolhas passíveis de mudança e instabilidade. A narração de Paulo César Pereio incita e constrói variantes de o que poderia ter sido vários tipos de homem.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Janela

Movimento de Libertação das Imagens

Por Renato Souto Maior


Como tem se mostrado ao longo dos programas, mais uma vez a coerência se instaura na escolha dos filmes e temáticas, e juntos, os curtas, elevam ao extremo a idéia pensada e organizada para cada programa. Movimento de Libertação das Imagens é exatamente isto; liberdade concedida a todo o processo, tanto estético como narrativo.

Não é por acaso que o filme escolhido para a abertura da seleção tenha sido Miraslava (Roberto Santaguida, Canadá), produção pautada na movimentação, livre, de cores, sonhos, desejos e confissões, emaranhados e eficazmente transmitidos como um fluxo de consciência, um jorro lúdico pertencente a um jovem que sonha.

O contraste com a produção anterior surge em Ouço Seu Grito (Pablo Lamar. Argentina-Uruguai), onde uma imagem preta e branca aparece na tela como um quadro, perfeitamente composto, ao mostrar um homem em uma colina, ao pé de sua casa. Através dessa paisagem pintada a quietude até então generalizada cede espaço para o som ambiente, seguido de vozes e de um homem parado aparentemente sem motivação. Após sua entrada na casa um amontoado de pessoas sai da mesma, e seguem em um cortejo fúnebre.

Debaixo (Dominga Sotomayor, Chile) é uma produção filmada de cima para baixo. O posicionamento da câmera aqui ganha caráter essencial e não apenas estilístico, mas sim narrativo. Um pai, divorciado, espera sua família – ex-mulher, filha e parentes - em uma área de lazer que parece pertencer a um sítio, praia. Logo o título se fará compreender não só pelo uso contínuo da câmera acima do espaço mostrado, mas por explicitar a condição do protagonista abaixo de suas próprias expectativas; a filha que provavelmente prefere o padrasto a ele, sentindo-se insegura e desconfortável na sua presença. A iniciativa espontânea e freqüente de em certos momentos alguns ali presentes olharem para cima cria a sensação de instabilidade, e a olhada para o alto, o céu, revela uma incerteza e busca por segurança por não saberem lidar com determinada situação ali, embaixo, ao nível comum dos outros. O curta segue com excelência ao obrigar os personagens a inclinarem suas cabeças e encararem o céu, como se estivessem esperando um eclipse, ou algo fora do normal; e nesse momento seus rostos aparecem, quase por completo, pois usam uns óculos especiais, como se não pudessem enfrentar sem alguma proteção a imensidão acima de suas cabeças. O único a, por vários momentos durante o filme, fitar o mistério presente sobre ele é o anfitrião, este, melhor situado com seus sentimentos e com a filha, após a passagem do provável eclipse.

Inquestionavelmente o mais intrigante do programa, Indução (Nicolas Provost, Bélgica) ergue uma trama não linear sobre um filho que observa a mãe em estado de hipnose, atraída e induzida a algo por um negro, aparentemente surgido do nada. Sob uma música tensa e sombria os acontecimentos se desenrolam soltos, onde a não regularidade da movimentação dos personagens e suas ações fazem a diferença, causando impacto e riqueza estética em um filme provocador da mais incerta sensação, por se apropriar tão bem da linguagem proposta.

Após experiência única surge no programa o melhor filme até então, Viagem À Floresta (Jorn Staeger, Alemanha), cuidadosamente editado, realizado e pensado, provocativo sem exageros e responsável por uma eficiente viagem visual, construída com os mais diversos tons de verde, em uma celebração a floresta, seja ela urbana, solta, presa, domada, paisagística ou morta. Som e imagem se fundem eficazmente, com o movimento da câmera em plena liberdade, a invadir matas, caminhos, até se transformar em abelha e penetrar árvores, troncos, florestas e verde. A integração entre som e imagem confere apuro extraordinário à produção, repleta de analogias e comparações interessantes; uma das melhores retrata uma árvore como pulmão, reforçada pela sonoridade escolhida, ao se ouvir uma respiração genuína.

Procrastinação (Johnny Kelly, Inglaterra) é o ato de não conseguir começar algo, não fazer nada. O uso da animação transmite eficientemente a idéia de procrastinar, atitude não adotada pelo realizador do filme, vide sua qualidade visual e narrativa.

Ninfa (Ken Jacobs, EUA) usa a técnica da repetição de imagens para efeito satisfatório; vale pelo resultado amarrado, até engraçado e coerente.

Réquiem (SunXun, China) se constrói a partir de colagens, sobreposições e momentos animados em uma excitação criativa onde a imagem livre se preocupa mais com sua função imediatista do que a elaboração de uma trama compreensível.

Lágrima Napolitana (Franceso Satta, Itália) é um filme sem graça, sem beleza e sem qualidade. É isso. Mesmo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Janela

O Tempo e Outros Sinais de Vida

Por Renato Souto Maior


O ser só é o protagonista dos quatro filmes que compõem o programa O Tempo e outros Sinais de Vida, e apenas a lembrança, familiar ou não, é elemento de conexão entre os curtas. Cansaço e sofrimento estampam os rostos dos personagens, e apenas a memória afetiva os fazem trabalhar, implicando na ação mais mecânica que emotiva, onde a nostalgia se apresenta como única razão para seguirem suas existências, na mais completa solidão, mas acompanhados, sempre, de seus passados avidamente celebrados e guardados.

G16 G17 (Saw Tiong, Malásia) inicia o programa com história comovente, mas não convincente, de mãe e filho e a ligação entre eles através de uma sala de cinema. Para agradar a mãe, exclusivamente por isso, ele volta ao cinema abandonado da cidade para resgatá-lo e presenteá-la com sua restauração. Narrativa fluída e bem amarrada em um filme tecnicamente satisfatório e só. A trilha instrumental excessiva cansa, e quando parece ter acabado volta completa nos créditos, só para, assim como de filho para mãe, presentear o espectador; este, certamente, não convidativo ao presente.

Depois foi exibido o filme mais curto da seleção, e junto com o próximo, o mais denso, poético e representativo do tema. O Homem da Cabine (The Cabin Man, Ashish Pandey, Índia) narra à trajetória de um homem, sozinho, em uma estação de trem, a vagar pelos trilhos, matas e arredores do lugar. A saudade e dor expressas em seu rosto são explicadas em uma cena, breve, onde ele olha embaraçado uma foto de família; e este belo toque já explica qualquer dúvida sobre a sua origem e seu semblante sofrido e pensativo.

O mais visualmente experimental do programa, Maré (Marea, Hatuey Viveros, México) conta a relação de um solitário pescador e o mar, e por cenas soltas constrói essa ligação entre este homem sozinho e suas perdas, suas recordações e seu passado. As inconstâncias da maré e das ondas remetem a própria personalidade dele, perdido entre realidade e memória, andando, pela praia, a catar coisas e afetos. Com um tom acinzentado puxado para o azul, a produção se mostra excepcionalmente bem realizada e com um traço lúdico eficaz no texto, narrativa e estética.

O último curta, Uku Ukai (Audrius Stonys, Lituânia), fala de velhos, e da importância física do movimento para suas vidas. Aqui as pessoas, apesar de em alguns momentos compartilharem companhia numerosa, também correm, andam, se exercitam em estado de solidão, e o homem idoso de camisa amarela a correr pelas ruas sintetiza isso; juntamente com a narração em off de uma mulher a falar, como em uma gravação, as atividades vitais para qualquer um, “respire, e expire, calmamente”. Seu timbre vocal reforça a idéia de meditação, movimentos repetitivos, concentração e disciplina. O filme se confunde e se estende mais do que deveria, mas vale pelo exercício rigoroso de concentração do espectador, algo propositalmente colocado para produzir efeito semelhante ao visto na tela, o de paciência e repetição, características presentes na idade avançada, no corpo cansado que responde a tudo com mais sensibilidade e dor.